Novo livro: Mídias Sociais no Brasil Emergente

A classe C não usa redes sociais para mobilização política, diz livro

Por 15 meses, o historiador e antropólogo Juliano Spyer morou em um povoado no interior da Bahia. Ao lado da mulher Thais Rocha, uma das raras egiptólogas formadas no Brasil e atualmente concluindo o seu doutorado na Universidade de Oxford (Inglaterra), ele pretendia construir o primeiro retrato fiel do uso da Internet pelas classes emergentes do País ou a conhecida classe C.

Até então, sob o ponto de vista etnográfico, pouco havia se discutido ou pesquisado os hábitos online desse segmento que, segundo o Google, representa hoje a maioria dos usuários brasileiros da rede.

Esse trabalho, a tese de doutorado de Spyer defendida junto ao Departamento de Antropologia da University College London (UCL), se transformou no livro Social Media in Emergent Brazil, disponível para download.

Numa linguagem de fácil entendimento, como apenas alguém com bom domínio da escrita conseguiria, e extensa bibliografia, o livro de Spyer é um excelente roteiro para quem pretende entender como a Internet é usada nas periferias dos centros urbanos e no interior do país.

Com 240 páginas, esta pesquisa sobre o Brasil foi orientada pelo antropólogo Daniel Miller, financiada pelo Conselho Europeu de Pesquisa, e faz parte do projeto Why We Post, que estudou como pessoas em nove países, incluindo também China, Índia e Turquia, entendem e usam as mídias sociais hoje.

Algumas descobertas de Spyer no povoado baiano (vídeos), listadas a seguir, mostram como formuladores de políticas públicas e especialistas na área de Internet podem contemplar a real dimensão da rede no País.

1. EM VEZ DE DISTANCIAR, A INTERNET JUNTA QUEM JÁ ESTÁ PRÓXIMO

Para as classes populares no Brasil, o principal uso da internet não é para falar com quem está longe, mas para se manter em contato com quem está perto.

Um dos atrativos das mídias sociais para esse grupo social é poder manter a comunicação contínua com parentes e vizinhos, que fazem parte de redes de solidariedade cuja função é ajudar-se mutuamente em situações de dificuldade.

Por isso, em vez de usar várias plataformas para se relacionar com “públicos” diferentes, eles concentram sua presença no Facebook e no WhatsApp, que são as plataformas agregadoras que reúnem todo mundo.

Se não há ambulância, é o vizinho quem leva; o mesmo vale para as situações comuns de desemprego, problemas com a justiça, exposição à violência.

As mídias sociais fortaleceram esses vínculos entre pessoas que vivem próximas entre si e que vinham sendo diluídos pela migração e pela rotina da vida urbana.

2. A INTERNET CRIA NOVAS POSSIBILIDADES DE PRIVACIDADE

Como as camadas populares tradicionalmente vivem mais próximos entre si do que os outros grupos da sociedade, para eles não há tanto o excesso de distância, mas o excesso de proximidade.

Filhos casados costumam construir suas casas no terreno dos pais e parentes e viverem próximos, porque há muita interdependência, da família e também de vizinhos, que se tornam parte da família afetiva.

Uma consequência disso é que esses brasileiros estão constantemente se observando, se vigiando e “se metendo na vida” uns dos outros. Nesse contexto, outro motivo do interesse pelas mídias sociais é que ela oferece novas oportunidades de comunicação privada.

3. JOVENS ADEREM ÀS MÍDIAS SOCIAIS POR MAIOR AUTONOMIA

Nas camadas médias e nas elites, as mídias sociais servem para os mais novos encontrarem espaços não controlados de convivência, então, em vez de usar Facebook, eles usam o SnapChat, que os pais não sabem usar.

Nas classes populares, é importante estar junto – como foi explicado anteriormente – e esses jovens são responsáveis pela inclusão digital dos mais velhos, criando seus perfis e ensinando-os a usar as plataformas.

Mas, assim como os jovens das classes altas, eles também encontram nas mídias sociais um ambiente pouco monitorado para se relacionarem com seus pares, mas sem precisar sair do Facebook e do WhatsApp.

Isso é possível pelo porque jovens têm melhor escolaridade e maior conhecimento das tecnologias digitais e, portanto, os adultos não conseguem acompanhar o que eles fazem online.

4. YOUTUBE É VISTO COMO ESCOLA DA VIDA

Nas escolas privadas, onde estudam os filhos da classe média e das elites, a internet é frequentemente vista como sendo um problema porque tira a atenção do jovem.

Diferente disso, os adultos das camadas populares tendem a ver o interesse dos filhos pela internet como sinal de que ele ou ela terá melhores oportunidades de trabalho no futuro.

A internet é percebida como uma alternativa à escola.

Principalmente o YouTube é usado como fonte de conhecimento para resolver todos os tipos de questões cotidianas, desde aprender a destravar um celular a fazer planilhas no Excel, desde consertar o motor da moto até instalar um sistema de fonte de alimentação ininterrupta (conhecido também como “no-break”, essencial para que o computador não queime em contextos de ocupações de terra onde a eletricidade é conectada irregularmente).

5. USO DA INTERNET É A PRIMEIRA MOTIVAÇÃO REAL PARA JOVENS LEREM E ESCREVEREM

Fala-se muito de como o uso da internet é ruim para o aprendizado da escrita porque, supostamente, o jovem passa a escrever usando gírias e sem se importar em obedecer às regras gramaticais.

Como está explicado acima, um dos motivos desses jovens abraçarem a comunicação online é terem um espaço fora do alcance dos pais, e eles aprendem a escrever com menos erros por pânico de passar vergonha na frente de seus pares nas redes sociais.

6. NÃO SE FALA DE POLÍTICA NAS MÍDIAS SOCIAIS E A INTERNET NÃO SERVE PARA MOBILIZAÇÃO

Nada pode ser mais claramente diferente entre as classes A e B e as populares no Brasil do que a percepção sobre a mídia social como veículo de empoderamento político.

Em junho de 2013, quando o Brasil parou por causa dos protestos contra corrução, se as TVs e os jornais não estavam cobrindo devidamente esses eventos, os brasileiros dos grandes centros tinham o Facebook para discutir e disseminar informação.

Mas durante as passeatas de 2013, as noticias na TV, muitas acontecendo há apenas 100 Km do povoado baiano onde a pesquisa aconteceu, eram percebidas como sendo algo estrangeiro à realidade deles.

Ninguém nesse povoado discutia esses temas nas ruas nem em suas linhas do tempo no Facebook.

O sentimento que prevalece é o de pessimismo pela percepção de que, para os brasileiros pobres, políticos aparecem durante as campanhas e somem depois de eleitos.

Facebook não é necessário como instrumento de mobilização porque as pessoas do povoado sabem quais são e já falam sobre os problemas locais diariamente quando se encontram nas ruas ou nos pontos de ônibus.